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Arte na (R)evolução de Darwin
_texto curatorial, por Lucas Ribeiro

Ciência e arte podem parecer campos de conhecimento distantes e, por que não, opostos. Mas nem sempre foi assim, como atesta o legado dos renascentistas Miguelangelo e Leonardo da Vinci, gênios da ciência e da arte do século XVI. De lá pra cá a ciência avançou radicalmente, se desdobrando em inúmeras disciplinas e lidando com dados progressivamente mais complexos, com resultados cada vez mais capazes de mudar o mundo e desvendar o universo.

Quanto à arte, ela não cessou de tentar entender sua razão de existir e de se reinventar, pontuada por movimentos que, em grande parte, traduzem o desejo pela ruptura com o conceito de arte anterior a eles. Essa história das expressões artísticas do homem acumulada ao longo dos séculos e, principalmente, a consciência da mesma, faz da busca por uma arte verdadeiramente nova algo mais complexo do que nunca.

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Nessa evolução de crescente complexidade, hoje nos deparamos com uma ciência e uma arte claramente separadas, mas compartilhando um mesmo problema: a dificuldade de comunicação com o resto da sociedade. Tanto o detalhado discurso de um cientista, cheio de jargões e referências, sobre as últimas descobertas da física quântica, quanto à explicação do conceito de uma obra de um artista contemporâneo, cheia de quebras de paradigmas e comentários sobre a pós-modernidade, são capazes de fazer um cidadão comum dormir. E isso é um desastre, pois o que move a ciência e a arte são as pessoas. Se a população não se envolve, não entende, ou pelo menos se interessa por esses campos de conhecimento, eles estão fadados a estagnação.

A principal resposta do mundo científico ao problema está na educação, com as mais variadas propostas didáticas e até grandes centros especializados em estabelecer e fortalecer a conexão entre a ciência e o cidadão, como é o caso do Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS. Na arte também existe um esforço fenomenal em trabalhar didáticas e criar essa conexão, com muitas instituições e museus voltados para esse objetivo. Porém, ao contrário da construção empírica do conhecimento, a lógica objetiva que faz a ciência avançar, a arte é feita de escolhas e valores subjetivos, podendo seguir o rumo que os artistas desejarem. Mas, talvez pelo distanciamento do mundo externo dos museus e do meio acadêmico, grande parte da produção artística evoluiu num sentido puramente conceitual, com poucos apreciadores fora desse meio especializado. Talvez o problema também seja gerado por um mercado elitizado, o fato é que, em linhas gerais, a arte contemporânea é pra poucos. Ainda assim o cenário está mudando, sem grandes rupturas, mas abrindo espaço para um retorno às habilidades técnicas, ao figurativo, ao desenho e à pintura.

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Os artistas Mateus Grimm, Trampo e DSM, de Porto Alegre, são representantes de uma geração que está conquistando o mundo, mas começou sem grandes pretensões e, portanto, sem a necessidade de se alinhar a tendências ou mercados. Desenhistas antes de tudo, eles fazem arte pelo prazer de se expressarem e serem entendidos, à vontade em um contexto visualmente sobrecarregado de mensagens e produtos de consumo. Os três compartilham raízes em subculturas urbanas, como hip hop, punk e skate, e são conhecidos por sua arte de rua, produtos customizados e exposições. Em + Apto, a primeira mostra de arte no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, eles vão apresentar obras inéditas, inspiradas no universo abordado pela exposição (R)evolução de Darwin e, principalmente, nos desdobramentos sociais da consciência sobre a evolução, devidamente processados pelas experiências pessoais, visões de mundo e estilos marcantes desses artistas.

Para as espécies, o que determina a sobrevivência são mutações que permitem a adaptação a um determinado meio. Mas para a espécie homo sapiens, foragida dos mecanismos da Seleção Natural, a sobrevivência depende da capacidade de aprender para se adaptar e transformar o meio em que vive. O ser humano precisa se tornar apto para a sobrevivência. Pensando na ciência e na arte como campos do saber que precisam se comunicar com a sociedade para seguir existindo, os artistas Mateus Grimm, Trampo e DSM estão definitivamente aptos e no lugar certo para ajudar a desenvolver essa comunicação, chamando atenção para a evolução através de suas expressões particulares.

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Sobre os artistas:

O artista e arquiteto Mateus Grimm é conhecido nas ruas por seus personagens expressivos, como elefantes e macacos, feitos com traços contínuos de spray. Fez exposições individuais nas galerias Adesivo, em Porto Alegre, e A CASA, em Curitiba, e participou de diversas exposições coletivas, incluindo a mostra TRANSFER, no Santander Cultural, também na capital gaúcha. Comercialmente, Mateus já ilustrou estampas de tênis para a Converse e é designer da marca Naipe Skateboards. Como arquiteto, integra o coletivo de arquitetura e skate NOH e é sócio do escritório Unidade Criação.

Diogenes da Silva Machado, ou simplesmente DSM, como costuma assinar, é designer e artista. Seus desenhos lembram, ao mesmo tempo, alta tecnologia, arte japonesa tradicional, graffiti e Art Nouveau. As linhas e sombras afiadas traçam personagens que podem ficar quase abstratos, mas sempre visualmente instigantes. Em Porto Alegre, o artista já participou de exposições como a coletiva Tinta na Vista, na Galeria Adesivo, e teve uma individual no espaço  Arte na Lata. Em São Paulo, fez pinturas ao vivo em grandes eventos ligados a cultura urbana. DSM também é entusiasta e praticante assíduo de ioiô.

Trampo é um artista urbano que tem raízes no graffiti do hip hop, skate e movimento punk. Aproveitando as limitações do rolinho, cria e desconstrói pássaros, entre outros personagens, mas também domina o desenho figurativo com spray, técnica que o levou duas vezes a participar de um grande evento de muralismo na Alemanha. Já teve exposição individual na Galeria Adesivo e participou de mostra TRANSFER, ambas em Porto Alegre, integrou coletivas da galeria Choque Cultural (SP) e trabalhou diversas vezes ao lado de artistas como OSGEMEOS. Trampo é integrante fundador do coletivo de artistas Urbanoide.

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CATALOGO E OBRAS DISPONÍVEIS

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